domingo, 6 de abril de 2008

"Quero entender"

Fragmentos de um discurso amoroso, p. 139...

O que eu acho do amor? - Em suma, não acho nada. Bem gostaria de saber o que é, mas, estando em seu interior, vejo-o em existência, não em essência. Aquilo que quero conhecer (o amor) é a matéria mesma que uso para falar (o discurso amoroso). A reflexão me é decerto permitida, mas, como essa reflexão é imediatamente apanhada na roda-viva das imagens, nunca redunda em reflexividade: excluído da lógica (que supõe linguagens exteriores umas às outras), não posso pretender bem pensar. Assim, mesmo que eu discorresse sobre o amor alo longo de todo um ano poderia apenas esperar apanhar-lhe o conceito "pelo rabo": por flashes, fórmulas, surpresas de expressão, dispersos através do grande fluxo do Imaginário, estou no lugar errado do amor, que é seu lugar deslumbrante: "O lugar mais escuro, diz um provérbio chinês, é sempre debaixo da lâmpada."


Roland Barthes

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