Falando no abismo... segue mais fragmentos de um discurso amoroso, p. 3
"ABISMAR-SE. Onda de aniquilamento que sobrevém ao sujeito amoroso por desespero ou plenitude.
Seja mágoa, seja felicidade, toma-me às vezes o desejo de me abismar. A manhã (no campo) está cinzenta e fresca. Sofro (de não sei que incidente). Uma idéia de suicídio se apresenta, pura de todo ressentimento (nenhuma chantagem contra ninguém); é uma idéia insípida; não rompe nada (com o silencio, com o abandono) desta manhã.
Um outro dia, debaixo de chuva, esperamos o barco na beira de um lago; de felicidade, desta vez, a mesma onda de aniquilamento me vem. Assim, às vezes, a desgraça ou a alegria assaltam-me, sem que sobrevenha nenhum tumulto: nenhum pathos mais: estou dissolvido, não despedaçado; caio, esvaio-me, derreto. Esse pensamento levemente tocado, pode voltar. Nada tem de solene. Isso é muito exatamente a suavidade.
A onda de abismo pode vir de uma mágoa, mas também de uma fusão: morremos juntos de nos amar: morte aberta, por diluição no éter, morte enclausurada da tumba comum.
O abismo é um momento de hipnose. Uma sugestão age, que me ordena desmaiar sem me matar. Daí, talvez, a suavidade do abismo: não tenho nenhuma responsabilidade nisso, o ato (de morrer não cabe a mim: confio-me, transfiro-me (a quem a Deus, à Natureza, a tudo, menos ao outro).
Quando assim me acontece de abismar-me, porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte. A imagem do outro – à qual eu me colava, da qual vivia – já não existe; ora é uma catástrofe (fútil) que parece afastá-la para sempre, ora é uma felicidade excessiva que me faz alcançá-la; de qualquer modo, separado ou dissolvido, não sou recolhido em parte alguma; na frente, nem eu, nem você, nem morte, mais nada a quem falar.
(Estranhamente, é no ato extremo do Imaginário amoroso – aniquilar-se por ter sido expulso da imagem ou nela ter-se confundido – que se consuma uma queda deste Imaginário: no tempo breve de um vacilar, perco minha estrutura de amante: é um luto factício, sem trabalho: algo como uma impronúncia.)
...
O abismo não passaria de uma aniquilamento oportuno? Não me seria difícil nele ler não um repouso, mas uma emoção. Mascaro meu luto sob uma fuga; diluo-me, desvaneço-me para escapar a esta compacidade, a esta saturação que faz de um sujeito responsável: saio: é o êxtase."
Roland Barthes
quinta-feira, 10 de abril de 2008
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